Roteiro 01 · de Abrantes aos Picos de Europa

Patos dos Picos. pelos parques naturais, até à asa norte.

A ideia é simples: arrancar de Abrantes e chegar aos Picos de Europa atravessando quatro parques naturais — Serra da Estrela em Portugal, Douro Internacional e o seu espelho espanhol Arribes del Duero, e o Lago de Sanabria já em Zamora. Não é o caminho mais rápido. É o caminho em que se desliga o piloto automático.

Faço esta asa norte desde 2021, mais de uma dúzia de vezes. Cada volta tem outro recorte, outra paragem, outra meteorologia. Esta página é o esqueleto — o que está ali à mão, e o que dá para entrar quando se decide fazê-lo de moto.

4 parquesnaturais · PT + ES
3 regiõesAstúrias · Cantábria · Leão
~1.100 kmsó ida (aprox.)
desde 2021+12 voltas
Teaser · Patos dos Picos em movimento clique no altifalante para ligar o som
A rota que faço · Outubro 2025

Três dias de Abrantes a Potes. mil cento e sessenta quilómetros, duas noites.

Isto não é um mapa simpático desenhado à mão — é o que sai do Kurviger, três ficheiros GPX exportados do guiador. Três cores no mapa, um dia cada. Duas paragens de dormir escolhidas a dedo, e um parque de estacionamento em Potes a marcar a entrada no maciço.

Dia 1 · 586,5 km · Abrantes → Abel Dia 2 · 289,9 km · Abel → El Rincón de Babia Dia 3 · 283,3 km · El Rincón de Babia → Potes
01 Dia 1 · 18 Outubro 2025

Abrantes → Gimonde

O dia mais longo dos três. Arranco de Abrantes e corro 586 km em direcção a nordeste — a ideia é despachar estrada em bom ritmo para chegar com sol ao sítio onde quero dormir, já em Trás-os-Montes.

A paragem da noite é o Restaurante & Hotel Abel, em Gimonde, a cinco quilómetros de Bragança, às portas do Parque Natural de Montesinho. A lógica é simples: parar, meter as motas no estacionamento e não voltar a mexer nelas até de manhã. Jantar ali mesmo: posta mirandesa, pudim de queijo e pudim de castanha — três razões para voltar. Casa da família do Sr. Abel desde 1984. Quarto tranquilo, moto à vista, amanhã é que é.

Quilómetros
586,5 km
Dormida
O Abel · Gimonde · Bragança
Porta do
Parque Natural de Montesinho
02 Dia 2 · 19 Outubro 2025

Gimonde → La Cueta

Depois de uma boa noite em Gimonde, 290 km com tempo para os olhos. Atravessa-se a fronteira para Castela-e-Leão e o dia termina alto, numa das povoações mais altas da Península Ibérica: La Cueta, a 1.442 metros de altitude.

A dormida é na Posada Real El Rincón de Babia, no barrio de Quejo, dentro do município de Cabrillanes (León) — território da Reserva da Biosfera de Babia (UNESCO) e às portas do Parque Natural de Somiedo. Casal espanhol top, espaço acolhedor, jantar razoável, conversa no fim. O tipo de paragem que só se descobre por indicação de quem a conhece — e que depois fica para sempre.

Quilómetros
289,9 km
Dormida
El Rincón de Babia · La Cueta · León
Altitude
1.442 m · Reserva da Biosfera
03 Dia 3 · 20 Outubro 2025

La Cueta → Potes

A chegada. 283 km com o maciço a crescer no pára-brisas — a estrada desce para norte, entra-se em Cantábria, e a paisagem muda de tom ao aproximar-se do Vale de Liébana.

O destino registado no GPS é o parque de estacionamento de Potes, vila medieval sobre o rio Quiviesa e porta de entrada oriental do maciço (a zona do Ándara). Dali acede-se ao Desfiladero de La Hermida, ao Teleférico de Fuente Dé e ao Mosteiro de Santo Toribio de Liébana. Potes é uma baliza — o roteiro de dentro do maciço continua nas secções a seguir desta página.

Quilómetros
283,3 km
Chegada
Parque de estacionamento · Potes · Cantábria
Total até aqui
1.159,7 km

a crescer. As paragens a meio de cada dia — cafés, gasolina, miradouros, estradas que valham por si — vão sendo identificadas à medida que o Mendão reúne as fotos e vídeos de cada ponto. Os marcadores numerados no mapa são os waypoints originais do GPX, à espera de nome e imagem.

A rota · quatro parques

O que há entre Abrantes e os Picos. não é pouco.

Quatro parques naturais alinhados quase em linha recta a norte-nordeste. Cada um merece um dia, alguns merecem dois. Na prática, faz-se em doses — uma volta de cada vez.

01
Portugal · Centro

Serra da Estrela

O primeiro fôlego. O maior parque natural de Portugal e, para mim, a transição do planalto beirão para a montanha a sério.

  • Criado em 1976, é o maior parque natural do país.
  • A Torre, a 1 993 m, é o ponto mais alto de Portugal continental.
  • Aqui nascem o Mondego e o Zêzere.
  • Reconhecido como Geoparque Mundial da UNESCO desde 10 de julho de 2020.

Em moto é o primeiro teste ao vento e à temperatura: 1 500 m fazem diferença mesmo no verão. No inverno, confirmar sempre o estado da N-339 antes de subir à Torre.

02
Portugal · Raia

Douro Internacional

Passada a Estrela, atravessa-se a Beira Alta e chega-se à raia. O Douro Internacional é a margem portuguesa de um dos cânions mais fechados da Península.

  • Parque natural desde 1998, corre ao longo da fronteira entre Portugal e Espanha.
  • Abriga aves de rapina de referência — cegonha-preta, abutre-do-Egipto (britango), águia-real, falcão-peregrino.
  • Integra, com o parque espanhol do outro lado, a Reserva da Biosfera Transfronteiriça Meseta Ibérica, reconhecida pela UNESCO a 9 de junho de 2015 (191 255 ha no total).

As estradas que descem aos miradouros do Douro são curtas mas muito técnicas, com pavimento irregular. Encostas a pique e muito vento de bochecha.

03
Espanha · Castilla y León

Arribes del Duero

Cruzada a fronteira, o mesmo rio, outro país, outro nome. Arribes é o espelho castelhano-leonês do Douro Internacional — só que do outro lado do canhão.

  • Parque natural espanhol declarado em 2002, abrange as províncias de Salamanca e Zamora.
  • Juntamente com o Douro Internacional português, forma a Reserva da Biosfera Meseta Ibérica (UNESCO, 2015).
  • Microclimas de vinha e olival agarrados às encostas mais abrigadas da Meseta.

Passa-se de um país ao outro sem se notar, a não ser pela mudança subtil da linha branca e dos sinais. Altíssima densidade de aves planadoras em condições de sol.

04
Espanha · Zamora

Lago de Sanabria

Último parque antes de se entrar no corredor que leva à Cordilheira Cantábrica. Um salto de paisagem: das arribas secas do Douro para a floresta atlântica e o maior lago glaciar da Península.

  • Parque natural desde 1978 (o primeiro parque natural de Castilla y León).
  • O Lago de Sanabria é o maior lago glaciar da Península Ibérica.
  • Área protegida com cerca de 22 365 ha; picos como a Peña Trevinca ultrapassam os 2 000 m.
  • Integra também a Reserva da Biosfera Meseta Ibérica.

A partir daqui a paisagem muda de vez: carvalhais, rios de água clara e, já ao longe, o vulto da Cordilheira Cantábrica.

Fontes desta secção

Chegada

E depois de Sanabria, os Picos. a asa norte abre-se.

Deixado Sanabria, o traçado parte para Leão e daí, por um dos puertos de sul, entra-se no núcleo dos Picos de Europa — o parque nacional mais antigo de Espanha (desde 1918) e a única grande cordilheira calcária da Península, partilhada entre Astúrias, Cantábria e Castela e Leão. A partir daqui, o roteiro muda de carácter: mais curvas, menos quilómetros por dia.

A partir daqui, a ideia é andar devagar e parar muito.
Nos Picos · info pontual

O que importa saber antes de entrar.

Resumo seco. Altitudes, distâncias, datas — o resto do peso narrativo fica para a segunda versão desta página, escrita em primeira pessoa.

Puertos

Cinco passes de montanha estruturam a volta.

Os principais, de sul para norte: San Glorio (1 609 m), Pandetrave (1 562 m), Panderruedas (1 450 m), Piedrasluengas (1 355 m) e Pontón (1 280 m). Todos com asfalto contínuo. Em inverno podem surgir avisos de neve — confirmar sempre na DGT espanhola antes de os atacar.

Desfiladeiros

Duas gargantas para fazer devagar.

O Desfiladero de la Hermida, na Cantábria, tem cerca de 20 km ao longo da N-621, pelo rio Deva — é o mais longo da Península. E o Desfiladero de los Beyos, entre Leão e Astúrias, cerca de 12 km pela N-625, pelo rio Sella. Os dois foram escavados pela água, não pelo homem.

Miradores

Três balcões sobre o maciço.

De referência: Mirador del Fitu (1 100 m, vista de 360° sobre o oriente asturiano), Mirador de la Reina (a meio da CO-4, na subida aos Lagos) e Mirador de Piedrashitas (acesso curto a pé desde o Puerto de Panderruedas, sobre o vale de Valdeón).

Bases

Três aldeias que funcionam como quartel-general.

Potes, no coração do Liébana (Cantábria), é a base para a Hermida, Fuente Dé e San Glorio. Cangas de Onís, nas Astúrias, é a porta para os Lagos de Covadonga e para los Beyos. Arenas de Cabrales, a 6 km de Poncebos pela AS-114, é a porta do funicular de Bulnes e da Ruta del Cares.

Paragens obrigatórias

Quatro sítios que obrigam a desmontar da mota.

Lagos de Covadonga (Enol e Ercina, a cerca de 1 100 m, na CO-4) — ver FAQ abaixo para o regime de acesso. Teleférico de Fuente Dé, em Cantábria, sobe 753 m em 4 minutos até aos 1 850 m (reserva recomendada no verão). Funicular de Bulnes, em operação desde 2001: 2,227 km em túnel, 7 minutos, entre Poncebos e a aldeia de Bulnes, única via motorizada até ao sopé do Picu Urriellu (Naranjo de Bulnes, 2 519 m). Ruta del Cares: cerca de 12 km por sentido entre Poncebos (Astúrias) e Caín (Leão), 3–4 horas a caminhar, ao longo do canal hidráulico aberto em 1916 — obriga a um dia dedicado, não se encaixa num dia de mota.

Fontes desta secção

FAQ · Plano de Covadonga 2026

Pode-se subir aos Lagos de Covadonga de moto? depende da época.

Resposta curta: nos períodos regulados pelo Plano de Covadonga, motas estão incluídas na mesma restrição dos carros e autocaravanas — a estrada CO-4 fecha a tráfego privado 24 horas e só sobem autocarros, táxis locais e veículos autorizados. Fora desses períodos (inverno e inícios de primavera / finais de outono), o acesso em moto é livre.

Períodos regulados em 2026

Durante estes dias, não há janela nocturna nem madrugadora: a CO-4 fecha das 00:00 às 24:00 a tráfego privado.

Autocarro 2026 (quando a estrada está fechada)

08:00
1º de subida
17:45
últ. subida
20:50
últ. descida (verão)
9,00 €
adulto · ida-volta

Crianças 4–11: 3,50 €. Sai da bolsa de estacionamento de Buferrera, abaixo de Cangas de Onís / Covadonga. Bilhete válido para o dia inteiro.

Fora de época — acesso livre em moto

Fora dos períodos acima, pode-se subir livremente de moto pela CO-4. A recomendação transversal é subir cedo ou ao fim do dia e, sobretudo em inverno, confirmar se há neve ou gelo na estrada.

Datas e horários confirmam-se sempre antes da viagem em lagosdecovadonga.org (site oficial) ou no Parque Nacional de los Picos de Europa. A programação pode mudar pontualmente.

Fontes desta secção

Nota editorial

Esqueleto agora, narrativa depois. sem inventar.

Esta página é o esqueleto factual da rota — quatro parques naturais, uma ideia de chegada aos Picos e a FAQ de Covadonga que me pedem todas as semanas. Os factos específicos (altitudes, datas, horários, áreas protegidas) vêm de fontes oficiais portuguesas e espanholas, com links à vista. O registo pessoal — por onde paro, o que como, quando vou e com quem — fica para a segunda versão, que escreverei em primeira pessoa e sem atalhos.